Análise de rótulo de alimentos para cães e gatos: mitos e verdades
Entenda o que realmente importa na análise de rótulos de alimentos para cães e gatos e esclareça os principais mitos sobre o tema.
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O interesse pela nutrição de cães e gatos tem crescido, com maior preocupação com sua saúde e longevidade. No entanto, nem todas as informações disponíveis são confiáveis e muitos conceitos são aplicados sem considerar as particularidades fisiológicas dessas espécies, o que pode gerar mitos. Nesse contexto, a interpretação adequada da composição dos alimentos comerciais para cães e gatos é uma ferramenta essencial na prática clínica, reforçando o papel do médico veterinário na condução de recomendações nutricionais fundamentadas.
Composição básica e níveis de garantia: o que avaliar?
A interpretação do rótulo deve começar pela identificação da indicação do alimento: espécie, fase de vida e se ele é completo e balanceado ou destinado a usos específicos. A partir disso, a comparação, em conjunto, da composição básica e dos níveis de garantia presentes no rótulo, auxiliam na avaliação das características nutricionais do produto (Figura 1).
Figura 1. Componentes do rótulo de um alimento completo para cães.
Um dos principais mitos relacionados à interpretação de rótulos é acreditar que o primeiro ingrediente listado representa necessariamente o ingrediente de maior inclusão no alimento. Diferente do que muitos consumidores imaginam, a legislação brasileira que regulamenta os alimentos comerciais para animais de companhia não estabelece que os ingredientes devam ser apresentados em ordem decrescente de inclusão. Dessa forma, a avaliação da qualidade de um alimento não deve ser baseada na posição de um único ingrediente na lista, mas sim na composição completa do produto.
Outro ponto que gera dúvidas é a quantidade de proteína do alimento. Um maior teor de proteína bruta não significa, necessariamente, um alimento de melhor qualidade. Inclusive, o excesso de aminoácidos absorvidos é convertido, em sua maioria, em ureia e excretado pela urina. Desse modo, mais importante do que a quantidade é avaliar a qualidade das fontes proteicas e sua digestibilidade. Ingredientes como farinha de vísceras de aves, ovo em pó, farinha de torresmo e algumas fontes proteicas hidrolisadas apresentam alta digestibilidade. Além disso, fontes de proteínas vegetais, como farelo proteico de milho (também conhecido como glúten de milho 60) e proteína isolada de soja, também apresentam alta digestibilidade. Ainda, quando combinadas as fontes proteicas animais, as fontes vegetais contribuem para o balanceamento da dieta, principalmente no equilíbrio de cálcio e fósforo.
Além da proteína, os lipídios também são apresentados no rótulo com valores mínimos de garantia. Isso porque essas frações nutricionais fornecem aminoácidos (proteínas) e ácidos graxos (lipídios) essenciais para cães e gatos. Os lipídios, denominados no rótulo como extrato etéreo, influenciam diretamente na quantidade diária de alimento a ser oferecida ao animal, uma vez que possuem alta densidade calórica. Dietas com maior teor de lipídios podem ser interessantes para animais com maior demanda energética, como filhotes e fêmeas gestantes ou lactantes. Enquanto animais com sobrepeso ou obesos podem se beneficiar de alimentos com menor densidade calórica. Além disso, algumas fontes lipídicas possuem características funcionais, como os óleos de peixe ricos em ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA), que apresentam propriedades imunomoduladoras e podem auxiliar no manejo nutricional de condições associadas à inflamação.
Por fim, a matéria mineral e a fibra são apresentadas no rótulo com valores máximos de garantia. O excesso de matéria mineral (acima de 11%) e fibra (acima de 5%) podem indicar maior quantidade de ingredientes menos digestíveis no alimento. Apesar disso, valores mais elevados não devem ser interpretados isoladamente como indicativo de menor qualidade. A matéria mineral representa a fração inorgânica do alimento e pode variar de acordo com a composição da dieta e das matérias-primas utilizadas. Já a fibra, além de influenciar características fecais e trânsito intestinal, pode ser uma ferramenta nutricional importante em situações específicas, como controle de peso (maiores teores de fibras são importantes para reduzir as calorias da dieta).
Alegações do rótulo: informação nutricional ou estratégia de comunicação?
Além das informações nutricionais, as alegações presentes nos rótulos têm como objetivo destacar características específicas dos alimentos e facilitar a comunicação com os responsáveis pelos animais. Termos como “premium” e “super premium” correspondem a categorias de mercado e não substituem a avaliação da composição nutricional. Outras alegações, como “natural”, “rico em” ou “com sabor de”, também devem ser interpretadas com atenção, pois destacam características específicas do produto, mas também não são suficientes, isoladamente, para determinar sua qualidade.
A seguir, estão alguns dos principais mitos relacionados à avaliação de rótulos e os pontos que devem ser considerados para uma análise mais adequada.
Tabela 1. Principais mitos na interpretação de rótulos de alimentos para cães e gatos.
| Mitos | Verdades |
| Quanto maior o teor de proteína, melhor o alimento. | A qualidade do alimento depende dos valores nutricionais, mas também da qualidade dos ingredientes. Ainda, o excesso de proteínas na dieta é excretado. |
| Proteínas de origem animal são melhores que as vegetais. | A combinação de proteínas de origem animal e vegetal melhora o balanceamento de aminoácidos e minerais da dieta. |
| Os ingredientes são apresentados em ordem de inclusão do maior para o menor. | Isso não é exigido pela legislação brasileira e, portanto, a indústria escolhe a ordem. |
| O sabor de um alimento refere-se ao palatabilizante utilizado. | O sabor do alimento pode ser do palatabilizante e/ou de ingredientes da fórmula, não indicando necessariamente a presença do ingrediente em quantidade significativa. |
| Os palatabilizantes são produtos artificiais. | Os palatabilizantes são hidrolisados de vísceras de aves ou suínos (por exemplo) e, portanto, são naturais. |
| A presença de certos ingredientes indica que o alimento tem baixa qualidade. | Apenas a presença de um ingrediente não indica a qualidade do alimento. Devemos sempre avaliar, também, os níveis de garantia. |
| O símbolo de transgênico indica que o alimento pode ser prejudicial. | Não, o símbolo apenas informa a presença de ingredientes transgênicos. Seu uso é regulamentado e sua presença não indica menor qualidade ou risco nutricional.
|
| Ingredientes “naturais” são sempre melhores | O termo “natural” não determina, isoladamente, qualidade nutricional, segurança ou adequação do alimento. |
Referências Bibliográficas
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