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Hipoglicemiantes na medicina veterinária

Conheça as novas abordagens no manejo do diabetes mellitus em cães e gatos e os avanços no tratamento da doença.

Publicado em 23 de outubro, 2026

O manejo do diabetes mellitus (DM) na medicina veterinária tem evoluído, especialmente na espécie felina. Tradicionalmente, a insulinoterapia sempre foi a base do tratamento por corrigir o déficit de ação insulínica e controlar o estado catabólico da hiperglicemia. Mais recentemente, as opções terapêuticas para gatos foram ampliadas com a aprovação dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 (iSGLT2) da classe das gliflozinas, que permite controle glicêmico sem uso inicial de insulina em pacientes criteriosamente selecionados ​1,2​ 

Entretanto, essa estratégia não deve ser extrapolada para todas as espécies. Em cães, o DM é predominantemente insulinodependente, com perda significativa da função das células beta pancreáticas, assim a insulinoterapia  se mantém como tratamento essencial ​3​. Assim, o uso de iSGLT2 na prática veterinária exige compreensão clara de suas indicações, limitações e riscos.

Como funcionam os inibidores de SGLT2?

Os inibidores de SGLT2 bloqueiam a reabsorção renal de glicose no túbulo proximal, promovendo glicosúria e redução da glicemia de forma independente da ação insulínica. Esse mecanismo reduz a glicotoxicidade sem depender da secreção pancreática residual ​2​. 

Na prática, isso pode proporcionar melhora clínica rápida em gatos recém-diagnosticados, com redução de poliúria, polidipsia e perda de peso. Esse benefício é especialmente relevante na espécie felina, cuja fisiopatologia se assemelha ao diabetes tipo 2 humano, marcada por resistência insulínica e disfunção progressiva de células beta ​1​. 

Além disso, por não estimular diretamente a ação da insulina, os iSGLT2 apresentam menor risco de hipoglicemia quando comparados à insulinoterapia.

Quando indicar em gatos?

O uso de inibidores de SGLT2 em gatos deve ser reservado para pacientes criteriosamente selecionados. As diretrizes atuais recomendam sua utilização principalmente em gatos com diagnóstico recente de diabetes mellitus, clinicamente estáveis, hidratados, com apetite preservado e sem evidência de cetose ou cetoacidose diabética​1,2​. 

Por outro lado, seu uso deve ser evitado em pacientes com anorexia ou hiporexia, cetonemia ou cetonuria significativa, cetoacidose diabética ativa, desidratação, pancreatite, hepatopatias importantes ou doenças sistêmicas concomitantes. Também não são recomendados para pacientes previamente insulinotratados com controle inadequado. 

A seleção criteriosa e o início precoce da terapia são fundamentais para segurança e eficácia, já que a redução da glicemia sem correção completa do déficit insulinêmico pode manter lipólise e cetogênese ativas, aumentando o risco de cetoacidose diabética euglicêmica (eDKA) ​2​. 

Nutrição: um pilar fundamental no manejo do paciente diabético

A terapia nutricional permanece um componente central no manejo do diabetes mellitus, independentemente do uso de insulina ou inibidores de SGLT2. O objetivo principal é reduzir variabilidade glicêmica, minimizar resistência insulínica e favorecer manutenção ou recuperação da condição corporal ideal ​4​. 

Nos gatos, a recomendação atual prioriza dietas com alto teor proteico (>40–45% da energia metabolizável) e baixo teor de carboidratos. A redução da carga de carboidratos auxilia no controle da hiperglicemia pós-prandial, reduz glicotoxicidade e pode favorecer remissão diabética em casos tratados precocemente. 

Além da composição, o controle do escore corporal é essencial, já que obesidade é fator importante de resistência insulínica. Em gatos obesos, dietas menos calóricas e com carboidratos moderados (15–25% da energia metabolizável) podem favorecer perda de peso sem comprometer suporte proteico. 

Nos cães, diferentemente dos gatos, o foco nutricional está menos na restrição de carboidratos e mais na consistência alimentar e previsibilidade metabólica, permitindo melhor sincronização com a insulinoterapia​4​. 

Entretanto, a prescrição nutricional deve sempre ser individualizada e integrada ao plano terapêutico global do paciente. Dietas com restrição de carboidratos, quando associadas ao uso de inibidores de SGLT2, exigem cautela, pois podem potencializar o estado de balanço energético negativo, favorecer lipólise acentuada e aumentar o risco de cetogênese, contribuindo para cetoacidose diabética euglicêmica (eDKA), descompensação metabólica e perda de peso excessiva. Portanto, a escolha dietética deve considerar não apenas o controle glicêmico, mas também o perfil metabólico, condição corporal, apetite e risco individual de cetose. 

Como iniciar e monitorar?

O início da terapia com SGLT2 exige triagem prévia rigorosa, incluindo hemograma, bioquímica sérica, eletrólitos, urinálise, avaliação de cetonas (preferencialmente sanguíneas), comorbidades, condição corporal e estado de hidratação. 

Após o início do tratamento, o monitoramento é essencial, principalmente nos primeiros 7–14 dias, período de maior risco metabólico, é sugerido o acompanhamento próximo (avaliação clínica, peso corporal, hidratação, cetonemia, glicemia) no 2º, 3º e 7º dias de tratamento, além de um monitoramento vigilante da família ​1​. 

É importante destacar que a glicemia isolada tem valor limitado nesses pacientes, pois a normoglicemia pode mascarar cetogênese progressiva. Por isso, no monitoramento inicial, a avaliação de cetonas deve ser prioridade. 

E sobre os cães? O que sabemos neste contexto?

Apesar do avanço dos inibidores de SGLT2 em gatos, essa estratégia não deve ser extrapolada para cães. O diabetes mellitus canino é predominantemente insulinodependente, marcado por deficiência significativa de insulina, o que torna a insulinoterapia essencial para controle metabólico e sobrevida ​3,5​. 

Até o momento, não há evidência robusta para uso rotineiro de iSGLT2 em cães diabéticos. Os estudos disponíveis concentram-se em modelos experimentais de resistência insulínica e obesidade, avaliando principalmente metabolismo lipídico e função do tecido adiposo. Kabir et al. (2023)​6​ demonstraram redução de adiposidade e melhora metabólica com dapagliflozina, mas também aumento de ácidos graxos livres e β-hidroxibutirato, reforçando o potencial pró-cetogênico da classe. 

Assim, em cães com deficiência insulinêmica verdadeira, o uso isolado de iSGLT2 pode aumentar o risco de cetogênese e cetoacidose, sem respaldo científico suficiente para recomendação clínica. 

iSGLT2 ou insulina: como decidir?

A escolha entre iSGLT2 e insulina deve ser individualizada, considerando estabilidade clínica, risco de cetose, presença de comorbidades e capacidade de monitoramento pelo responsável. 

A insulina segue como a opção mais segura e previsível, especialmente em pacientes instáveis, com cetose, perda de peso importante ou doenças concomitantes. Já os inibidores de SGLT2 representam uma alternativa promissora para casos selecionados, mas não devem ser encarados como terapia universal.

Conclusão

Os inibidores de SGLT2 representam um avanço importante no manejo do diabetes felino, ampliando as opções terapêuticas em pacientes criteriosamente selecionados. Entretanto, seu uso exige triagem rigorosa e monitoramento atento, especialmente pelo risco de cetose e cetoacidose diabética euglicêmica. 

Na espécie canina, a insulinoterapia permanece como base do tratamento, sustentada pela fisiopatologia predominantemente insulinodependente da doença. 

Mais do que substituir a insulina, o avanço no manejo do diabetes veterinário está na escolha da estratégia mais adequada para cada paciente. 

Figura 1. Abordagem do gato diabético. BCS: body condition score (escore de condição corporal), MCS: muscle score (escore de massa muscular), PA: pressão arterial, DM: diabetes mellitus. Adaptado de Bugbee et al., 2026; Taylor et al., 2025

Referências Bibliográficas

  • ​​1. Bugbee A, Rucinsky R, Alvarez E, Cook A, Lathan P, Panning C. 2026 AAHA Diabetes Management Guidelines for Cats. J Am Anim Hosp Assoc. 2026;62(3):65-93. doi:10.5326/JAAHA-MS-7572 

  • ​2. Taylor S, Cannon M, Church D, et al. 2025 iCatCare consensus guidelines on the diagnosis and management of diabetes mellitus in cats. J Feline Med Surg. 2025;27(11). doi:10.1177/1098612X251399103 

  • ​3. O’Kell AL, Davison LJ. Etiology and Pathophysiology of Diabetes Mellitus in Dogs. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2023;53(3):493-510. doi:10.1016/j.cvsm.2023.01.004 

  • ​4. Parker VJ, Hill RC. Nutritional Management of Cats and Dogs with Diabetes Mellitus. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2023;53(3):657-674. doi:10.1016/j.cvsm.2023.01.007 

  • ​5. Fleeman L, Gilor C. Insulin Therapy in Small Animals, Part 1: General Principles. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2023;53(3):615-633. doi:10.1016/j.cvsm.2023.02.002 

  • ​6. Kabir M, Bergman RN, Porter J, et al. Dapagliflozin prevents abdominal visceral and subcutaneous adipose tissue dysfunction in the insulin‐resistant canine model. Obesity. 2023;31(7):1798-1811. doi:10.1002/oby.23771 

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